sábado, 27 de dezembro de 2014

Mais parágrafos de " Vladimir"

Ficou rezando para Alá enquanto esperava. Logo Liesel chegou com o bebê Werther nos braços. Ele era uma perfeita mistura do sangue chinês do pai de Olímpiel, do sangue espanhol da mãe do mesmo, do sangue alemão do pai de Liesel e do sangue nigeriano da mãe dela. Depois de chorar por alguns minutos ao ver ao filho ( ato involuntariamente imitado por Liesel, que murmurava “ Eu te odeio, Olímpiel, mas estou emocionada com o nosso lindo filho!” ), o psicólogo disse em sueco à ex – mulher, para conferir um tom de privacidade à conversa:
_ Na próxima semana quero levar Werther à Grécia para conhecer minhas mães adotivas e meus irmãos.
A escritora fez uma expressão de perplexidade e respondeu em japonês:
_ A sua loucura voltou ?!!!! Ele é extremamente prematuro, nem vai ser criado por você e ainda quer leva –lo a outro país! Além disso, seu avô é um viciado em heroína, suas mães têm câncer e seus irmãos vão querer com certeza leva –lo àquele circo estúpido deles, onde ele pode ficar surdo com tanto barulho!
Ao que ele contra – argumentou em grego:
_ Vou pedir para minhas irmãs cuidarem dele... e você sabe que Sakura vai estar comigo... ela é muito responsável, graças a você, e vai manter Werther longe do vovô e do Circo de Dioniso. Sem falar que ver seu primeiro neto poderia fazer minhas mães esquecerem por um momento a quimioterapia. Ah, quase esqueci... ambos sabemos que, obviamente, vou criar meu filho!!
De um jeito que pareceu repentino e inconsequente a Olímpiel, a escritora berrou em português:
_ VAI CRIAR PORRA NENHUMA! MAJIN ESTÁ PREPARADO PARA SER PAI, NÃO VOCÊ! E NÃO VOU PRIVAR MIKE JR. DE TER UM IRMÃO!!!!!!!!!!!!
A secretária que ele assustara antes se sobressaltou com o berro de Liesel e perguntou, alarmada:
_ A senhora tá se sentindo bem, senhora Machine ? Posso arrumar um remédio pra depressão pós – parto e...
_ Estou bem... jovenzinha, agradeço. – disse Liesel para a secretária, forçando um sorriso brando, e em seguida acrescentou em um murmúrio quase inaudível para Vladimir: _ Vamos parar de brigar, senão Werther pode começar a chorar.
_  Concordo totalmente. Vou sair pra tomar uma cerveja ali no Eom Pub e te encontro daqui a quatro dias lá para conversarmos mais calmamente sobre isso, tudo bem ? – sussurrou o psicólogo em mandarim.
Ela desatou a rir nervosamente. Um olhar de atordoamento deprimido cruzou seus olhos e a mãe murmurou em sueco, com uma pontada muito audível de raiva na voz:
_ Se um dia eu não quis enxergar que você é um louco psicopata, esse dia já passou faz tempo. Como pode sair pra se embebedar quando seu segundo filho nasceu ?!!!
 O iPhone 2 apitou. Liesel mostrou o dedo do meio para Vladimir e entrou junto com Werther  em outra sala do Neves. Vladimir se entristeceu e chorou baixinho por alguns poucos minutos. Em seguida começou a usar o iPhone e percebeu que tinha recebido outro e –mail de sua filha, desta com um anexo que continha o resto até então escrito da história anterior:
“O pinguim Utgard Darkland estava soltando pipa no jardim de seu castelo enquanto sua irmã gêmea Alfheim Sara Júlia Darkland ouvia heavy metal no Ipod que seu avô materno jupiteriano – legendiano - chinês, Heráclito Tsé – Tung Noel, lhe dera. Os dois irmãos eram inseparáveis e viviam aventuras divertidas explorando a Península Japonesa junto com seu mordomo Girafa, uma girafa albina macho.
Infelizmente, a parte colorida da pipa de Utgard se enroscou em uma árvore próxima. Ele começou a chorar e berrar. Alarmes de incêndio começaram a soar no castelo. Alfheim revirou os olhos impacientemente para o irmão.
De repente, Heráclito Tsé – Tung Noel saiu do castelo pela ponte levadiça, que havia sido abaixada. Ele se vestia como um Papai Noel daqueles de shopping, só com um elmo de cavaleiro das Cruzadas terráqueas no lugar do gorro e chinelos marrons rasgados no lugar das botas.  Tinha uma barbicha e um bigode ralo pintados da cor de vinho, tinha as características físicas usuais de um chinês, porém possuía uma cabeça verde gelatinosa, antenas laranjas, rabo bifurcado vermelho e olhos completamente azuis como o céu, sem pupila. Ostentava no braço esquerdo uma tatuagem colorida da bandeira da extinta União Soviética.
_ Está tudo bem, Utgard ? – perguntou ele em  ierodaugníl.
Vruuuuummm, fez o carrinho. Os trilhos reagiram, brilhando com uma luz rósea. Suor escorreu pela testa de pato do passageiro mais magro. Fumaça era tragada por ele, que mordia um charuto cor de sorvete de baunilha enquanto os trilhos soltavam faíscas laranjas e o passageiro mais velho berrava em árabe porque o desespero o consumia. Sua prima gorda estava extremamente calma, com um raio de Zeus a tiracolo e uma Bíblia a seu lado, bebendo de uma taça cheia de vinho.
“ Testa de Pato” observou alarmado enquanto o carrinho se aproximava de uma curva da montanha – russa. Praguejou ao ver o contrato que seu pai acabara de assinar ser levado pelo vento no início da curva. Os pedaços de papel grampeados voaram em direção a um poço de fogo no meio da curva.
De forma súbita, os trilhos da montanha russa caíram e o carrinho despencou no vazio. A gorda arregalou os olhos e beijou a testa do velho. “ Testa de Pato” ouviu uma reza resignada escapar dos lábios sujos de vinho dela.
_ Vamos cair no Vulcão Magnético! – gritou o velho em árabe, ao mesmo tempo em que a gorda jogava o raio de Zeus embaixo do carrinho. Uma descarga elétrica inigualável aconteceu, e o carrinho foi eletrocutado.
A porta do prédio foi aberta e um mendigo vestindo trapos e segurando um caderno de capa vermelha entrou. O porteiro, que observava as imagens captadas pelas câmeras de segurança do exterior e interior do edifício enquanto mascava um chiclete distraidamente, olhou desconfiado para o recém – chegado:
_ Quem é você ? – perguntou bem rispidamente para o mendigo.
_  Rehtorb  Ummirg, senhor. Vim discutir um assunto urgente com Antônio Ricardo Filho... ele está ? – perguntou com uma voz serena ele.
_ Saiu. O doutor quer que eu deixe algum aviso ? – disse o porteiro, mudando o tom de voz e assumindo uma postura servil.
_ Não é necessário, Hopkins. – Ummirg abriu um sorriso malicioso, como quem sabia de algum terrível segredo.
_ Perdão... o doutor me co – co – co – conhece ?! – gaguejou o porteiro, iniciando uma descontrolada roída de unhas.” , leu o psicólogo novamente. Mais uma vez se sentiu anestesiado.
“ Minha filha é uma verdadeira artista” , pensou ele com orgulho.











sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Resenha de " A Guerra dos Tronos", de George R. R. Martin

Resenha: As crônicas de gelo e fogo – Guerra dos Tronos
Game of Thrones é assim: nas primeiras páginas, você pensa: porra, essa porra de livro vai ser um saco”. Aí você fecha o livro. Depois se passam três semanas, você já leu TODOS( no meu caso, todos seriam entre 4 e 16 livros, em um período normal)  os livros da sua “ fila de leitura”, que  é composta pelos livros que você planeja ler futuramente, e você está em uma porcaria de crise de abstinência de leitura e pra sair desse inferno você volta a ler.
Trinta páginas iniciais e o resumo dos seus pensamentos é: “ Cacete, eu estava certo, esse livro esquisito é uma bosta”. Um pequeno tempinho se passa e o enredo te agarra pelas bolas, te acorrentando ao maldito tijolo em forma de livro, e as descrições, as quais horas antes você achava serem amaldiçoadamente e endemoniamente exageradas,  se tornam deliciosamente exageradas. Tá, elas são minuciosas DEMAIS e qualquer um as usaria pra cair numa porra de hibernação de urso polar, mas você está cagando, porque você está perdendo a sanidade mental de tanto querer saber se os lobos gigantes são um sinal.
Resumindo, o início é uma maldita subida lenta e entediante de montanha – russa que se transforma em uma descida cheia de atrito e frio na boca do estômago. Metáforas para isso são escassas, mas enfim... o meio é como um loop do brinquedo, cheio de ansiedade e desorientação. O excesso barulhento de detalhes te deixa tonto, e num choque você percebe que o velhinho obeso parecido com o Papai Noel que escreveu o livro é o deus da morte encarnado e um serial killer cujo nome ficará para a posteridade por matar personagens.

Sem mais delongas, o final é tão intenso que você fica com medo de não conseguir dormir enquanto não conseguir pôr as mãos no segundo livro da série. 

Segundo: início de história sem nome

A espada foi fincada na pedra. O padre que a  havia fincado e  a segurava pelo cabo, um homem inglês, branco e idoso que tinha cabelos branco – acinzentados e usava óculos roxos que combinavam com a batina e o sapato ( pois o outro pé estava descalço), começou a entoar cânticos obscuros e macabros em uma língua que era uma mistura confusa de grego antigo, latim, árabe e hebraico. Uma fenda feita de energia mágica vermelha se formou na pedra enquanto o padre continuava a cantar.
A fenda foi crescendo à medida que o padre levantava cada vez mais a voz, até que cobriu toda a pedra. Suor escorreu da testa dele, que apesar de estar segurando a espada e cantando há apenas cinco minutos, já perdia energia e sentia fome e muito sono por tudo que aquela invocação exigia de seus poderes.
Vinte e cinco agonizantes minutos depois, um zumbido e um gemido escaparam da fenda e ele soube que o processo estava completo. Exausto, soltou o cabo da espada, e uma criatura de pele escamosa vermelho – sangue, asas brancas com manchas douradas resplandecentes e cabeça de serpente cor de carvão vestindo um terno branco com paletó preto, chapéu preto, sapatos azul – bebê e gravata – borboleta cor de vinho tinto saiu se arrastando da fenda em direção ao padre.
_ Olá, meu caro padre Fawkes – cumprimentou com uma voz sibilante, semelhante ao som de uma cobra, a criatura em latim depois de se levantar da grama verdíssima.
_ Meu nome não é esse, Oliver– respondeu o padre na mesma língua, franzindo o cenho e o rosto.
_ Deixe de formalidades e intrigas, velho Fawkes! – impacientou –se a criatura, irritada – Sei que quer esconder o legado do seu antepassado frouxo da Conspiração da Pólvora, mas é inútil usar codinomes para comunicação. Eu não preciso te chamar de Jack Jones tanto quanto você não precisa me chamar de Oliver Smith. Ambos sabemos que você é Xing Fawkes e que eu sou Lúcifer. – a criatura sibilou aquilo em um  tom calmo, porém imperativo e indubitável.
Um arrepio percorreu a espinha do padre. Seu nome saíra da boca do Diabo!
_ Sua alma se desvanece de medo, não é, seu covarde ?!!!! Sim! Assim como deve ser! – exclamou Lúcifer, satisfeito, balançando as asas resplandecentes e a língua bifurcada.
_ Sem dúvida, Vossa Infinitude. – Fawkes disse, conseguindo não gaguejar e se ajoelhando em frente à criatura. _ Todos devem temer o monstro que superará Deus.
_ Humpf, obviamente! Você é uma partícula de poeira insignificante, velho Fawkes! – gritou com desprezo evidente o invocado, revirando os olhos.
_ Novamente não há duvidas disso, Vossa Infinitude. – murmurou em tom de resignação o invocador, assentindo com a cabeça na direção do Diabo.
_ Agora que esta porra está perfeitamente clara, iremos conversar sobre o modo deplorável que a sua insignificância escolheu para invocar a perfeição encarnada, eu. Foi ofensivo pra caralho, seu terreno perdedor!!!!! Eu, o inatingível Lúcifer, tive que ME ARRASTAR PARA FORA DO PORTAL!!!!!!!!!!!!!!!!!! ISSO É IMPERDOÁVEL!!!!!!!!!!!!! UM SERVO NÃO FAZ ESTA INJÚRIA QUE UM LIXO COMO VOCÊ ME FEZ, FAWKES!!!!!!!!!!!!!!!!!! – urrou de puro ódio o Diabo, enquanto agarrava o padre pelo pescoço e o erguia na altura de  seu peito.
_ Infinitos perdões, Vossa Infinitude!!! Peço a vós infinitos perdões!!!!!!!!!!! Não se perdoa algo que é imperdoável, mas catastroficamente eu não tinha como conseguir os materiais e itens necessários para uma invocação perfeitamente adequada para a ocasião!!!!!! Me perdoe, meu amo!!!!!!!! – berrou implorando e guinchando de pânico Xing, que estava enlouquecidamente desesperado e chorando copiosamente.
_ NÃO ESTÁ DE MODO ALGUM PERDOADO, INSOLENTE MALDITO! – urrou Lúcifer, encostando a língua bifurcada no ponto onde ficava localizado o coração de Fawkes, coração este que batia como um tambor de guerra. O padre já começara a sentir dores inigualavelmente excruciantes  no peito, nos ouvidos e na cabeça.
Enquanto eles conversavam, o  vento uivou e a lua brilhou. Moradores de todo o  condado de Yorkshire começaram a sair de suas casas e agredir, despedaçar e queimar os bonecos que  com a imagem do conspirador Guy Fawkes que eles próprios desfilavam, mantendo a tradição da Noite das Fogueiras no dia 5 de novembro.
Após o começo daquilo, o Diabo se dissolveu em uma luz branca e desapareceu. O padre despencou no chão, ainda chorando, e se arrastou até perto da pedra, onde dormiu um sono extremamente perturbado, no qual continuou a chorar e acordou quarenta e nove vezes.
Cláudia viu, enquanto bebericava sua cerveja, o homem loiro de cabelos cacheados, alto, negro e tatuado ( suas tatuagens eram as seguintes: uma Estrela de Davi no braço direito, uma bandeira do Vaticano no rosto e uma espada ao lado de uma harpa no braço esquerdo) vestindo smokig rosa pink tragar muitos Malboros de uma só vez. Ela também reparou que uma jaqueta de aviador com manchas de tinta cobria o paletó do smoking. Esta, por sua vez, era coberta por uma jaqueta com a estampa do Exército israelense
Interessada, resolveu se aproximar. Não entendia como alguém podia ser negro e loiro ao mesmo tempo. E não restavam dúvidas de que o cabelo do homem não era tingido. Cláudia tinha experiência nisso, já que sua mãe era a cabeleleira mais conceituada e famosa de Campo Grande, e a obrigava a filha a ajuda –la quando tingia o cabelo dos clientes.
Ademais, por que ele teria uma Estrela de Davi e uma bandeira do Vaticano tatuadas ?
Além disso, sua namorada atual era uma jornalista nativa de Yorkshire que conhecia cada detalhe da vida de todos os moradores do condado. Como Cláudia ouvia absolutamente tudo que ela falava, tinha certeza que esse homem desconhecido nunca havia estado em Yorkshire até aquele dia.
Quando chegou ao balcão do bar, com a cerveja já pela metade, ela esqueceu  -se de controlar seu hábito irritante e cutucou o homem. Seu tato extremamente sensível identificou, através da jaqueta, do paletó e do terno, duas asas de pássaro enormes.
Cláudia arregalou os olhos, assustada e emocionada simultaneamente. Seus anos na faculdade de Ufologia do Arizona pareceram finalmente fazer algum sentido.
“ Encontrei um alienígena na Terra! Eureca!”, ela pensou feliz.
O homem desconhecido se virou para a brasileira e lhe lançou um olhar sombriamente perturbador. A boca de Cláudia ficou seca em seguida.
_ Boa tarde, senhor – a língua de Cláudia pareceu ter funcionado sozinha, e, pior ainda, ela falou em português em um bar inglês.
Ele disse algo incompreensível em uma língua desconhecida, mas por algum motivo ela gelou, sentiu sua pele se arrepiar e seu sangue parar de correr.
_ Desculpe, não entendo seu idioma, senhor. – sussurrou aterrorizada a brasileira em inglês, sentindo sua pulsação diminuir drasticamente.
 Outro murmúrio incompreensível saiu dos lábios ressecados do homem alado. A expressão dele demonstrava profunda hostilidade. Por instinto, ela tocou com a ponta do anelar o spray de pimenta que sempre carregava na bolsa Chanel.
Ele se levantou e tirou seus coturnos de pele de gato.  Um arquejo escapou dos lábios da brasileira quando ela percebeu que os pés dele eram completamente necrosados, com buracos, hematomas e incontáveis infecções.
_ Já entendi, o senhor irá me espantar de qualquer maneira possível! – exclamou Cláudia em inglês, sem querer deixando seu sotaque americano ( adquirido no Arizona) aflorar escandalosamente.
O alado assentiu e lhe deu um chute no rosto. Isso fez Cláudia cair de costas no chão. Ela soltou uma dúzia de palavrões em russo enquanto tentava estancar o sangue que jorrava  do nariz. Vários minutos depois, quando a dor começou a diminuir, a mulher se lembrou que um pé necrosado havia agredido seu nariz, e desatou a vomitar a cerveja que havia tomado.
Horas depois, se levantou apoiando – se nos cotovelos e notou que na cena em que caíra no chão o tempo tinha parado, como quando se aperta PAUSE em um filme. As pessoas no bar riam sorrisos congelados e bebiam de copos estáticos. Beberrões brigavam parados como se posassem para uma foto que nunca seria tirada. Um casal se beijava como se um escultor quisesse esculpir meticulosamente os dois. E o estranho alado havia desaparecido, assim como o copo de Cláudia.
Ela ficou em choque, imaginando por um tempo que pareceu uma eternidade se o estranho alado realmente havia parado o tempo, e se tivesse, como. Quase instintivamente e sem perceber, a ufóloga andou para fora do bar para ver se o tempo também havia parado por lá.
A resposta imediata encontrada foi não. O tempo corria normalmente. Atordoada, ela caminhou sem rumo pela rua


Primeiro post de verdade: Início de " Vladimir"

Vladimir
Capítulo 1
Vladimir Olímpiel pedalou até a igreja de bicicleta, levando seu diploma de Psicologia na mochila – verde limão, onde também carregava centenas de broches com temas de escoteiros, dezenas de latinhas Skol fechadas e cheias, seu diploma de Filosofia, dezenas de garrafas de vodca abertas e cheias, um iPhone 2, um tabuleiro de xadrez, seios de silicone falsos, um aquário com peixes beta dentro, um kit de mágica e uma garrafa de vinho cheia de uma mistura de sêmen de boi, vômito de sua filha, litros de pasta de dente e o equivalente a três xícaras de chá do próprio sangue.
Um pipoqueiro desdentado bloqueou seu caminho, berrando:
_ Tio, quer comprar pipoca ?!!! Só dois real, dois real, tô vendendo!
Antes que o cego pudesse responder, Gollum, seu cão – guia robótico que estivera seguindo a bicicleta, avisou sobre a breve chegada de uma das vans do Comunista Hospício. Vladimir ficou paralisado e desfaleceu.
Minutos depois, o pipoqueiro havia roubado a mochila, a bengala e os óculos escuros de Olímpiel, atropelado Gollum com o carrinho de pipoca e acendido um cigarro, ao mesmo tempo em que a noiva alemã grávida que iria se casar dali a quinze minutos no Templo de Salomão correra para acudir Vladimir, xingando o louco ex – marido em alemão, sem notar o que o pipoqueiro havia feito.
Olívia, a madrinha de casamento, saiu correndo só de calcinha da igreja para chamar a noiva, gritando:
_ Liesel! Seu filho adotivo voltou a fumar maconha!
Liesel, a noiva, se virou apenas a tempo de ver a van do Comunista Hospício atropelar sem querer Olívia, que com o impacto voou vários metros e bateu em um poste. Segundos depois, a calcinha fio – dental que ela usava caiu, revelando sua vagina.
Cadáver disponível para aulas de anatomia em Harvard, senhor reencarnação de Freud”, anunciou Gollum em sua voz robótica, como se estivesse conversando normalmente com o  Olímpiel no apartamento do psicólogo em Tóquio.
Liesel caiu no choro e não viu os funcionários bigodudos conversando em voz baixa com o pipoqueiro, que alegou ter sido forçado pelo cão – robô a fazer sexo oral com Vladimir e a noiva.
Os bigodudos acreditaram, então o pipoqueiro exigiu setenta e três mil reais em dinheiro vivo para não contar à polícia que o hospício deixara escapar um louco nas ruas de São Paulo.
Liesel ouviu um tiro e notou que o corpo agora sem vida do pipoqueiro tombara. O que se seguiu foi um cantar de pneus, e Vladimir, atordoado, começou a acordar e viu pelo canto do olho robótico a van do Comunista Hospício desaparecer no horizonte urbano enquanto um pipoqueiro com um cigarro na boca jazia morto, assim como sua melhor amiga, nua como na época em que os dois trabalhavam na indústria pornográfica.
“ Alá, salve –me”, pensou ele quando percebeu que, como se não bastasse, sua ex –mulher e único amor na vida além da Psicologia e do álcool, em um escandaloso ataque de histeria batia com um abajur na cabeça de seu melhor amigo e fiel companheiro Gollum, o maravilhoso cão –guia robótico, rpgista, químico, pintor e falador de um francês impecavelmente fluente.
Lágrimas sem substância física caíram dos olhos de Olímpiel, e ele rezou a Alá fervorosamente para que tudo aquilo fosse um sonho e ele acordasse de ressaca na cozinha do apartamento, rodeado de seus livros favoritos de Psicologia, Filosofia, Química, Dungeons & Dragons e História da Arte, e pudesse ver por uma última vez sua filha japonesa Sakura gritando animada “ Gollum, prepara o suco de goiaba! Meu pai acordou!”
Esperou que sua consciência despertasse após rezar e quis sentir o chão duro e sujo de vodca da cozinha, mas nada aconteceu. Olímpiel se levantou e recolheu sua mochila agora rasgada enquanto sentia um fortíssimo aperto no coração ao ver Gollum arder em chamas enquanto Liesel berrava um nome não familiar a ele:
_ Mike Jr!!
De repente, um homem irlândes fantasiado de Super – Homem com uma xícara de café na mão e um adolescente turco fantasiado de Ursinho Pooh arrastando um saco de um quilo de maconha pedalaram em monociclos amarelos para fora da igreja. Pararam em frente a Vladimir, e o homem jogou um walkie – talkie em seu rosto.
Aquilo acertou Olímpiel bem na ponta do nariz, e ele praguejou em japonês.
O adolescente desceu do monociclo e perguntou a Liesel em alemão, língua que o psicólogo aprendera a falar na quinta semana da lua de mel que teve com ela:
_ Mãe, por que a senhora Olívia está morta ? Esse seu ex – marido louco a matou ?
Ao que Liesel respondeu, soluçando.
_ De jeito nenhum, Mike Jr.! Ela foi atropelada por comunistas!
_ O que são comunistas ? – perguntou o turco, aparentando estar confuso.
O Super – Homem irritante pareceu estar explicando alguma coisa, mas o psicólogo não pôde ouvir, pois  a música “ Last Night On Earth”, da banda Green Day, se fez ouvir. Era o maravilhoso toque de seu celular. Olímpiel tirou o iPhone 2 da mochila. A tela exibia as palavras " Primogênita Flor Chamando” .
Ele selecionou a opção “ Atender”. O som da voz infantil surgiu:
_ Dattebayo, lorde Freud! Estais bem ?
Antes que pudesse responder, o celular foi derrubado no asfalto por aquela mão pálida que tanto amava. Sentindo uma mistura de carinho,  bem – estar, revolta, amargura e raiva, Vladimir urrou, se dirigindo a Liesel:
_ ERA A MINHA FILHA, SUA PUTA!
A sensação seguinte foi de dor intensa no momento em que o Super – Homem lhe deu um murro. Tudo ficou sombriamente escuro, horrível e familiar quando, por alguns instantes, quando seus olhos robóticos se desligaram automaticamente.
_ Amor, acho... acho... que e – e – e – estou dan – dan – dan – dan – dan –do à luz! – ouviu Liesel gaguejar, nervosa, e sorriu. Finalmente poderia ajuda –la. “ O futuro Werther é da minha semente, Alá me garantiuc isso”, pensou feliz.
Voltou a ver, e notou que o turco estava berrando:
_ Mãe, como assim o Werther vai nascer agora ?!! Você vai se casar com o pai em quatro minutos, e a senhora Olívia está morta!
_ Majin, me leve para o hospital! – pediu Liesel, olhando para o Super – Homem.
_ Jr., avise o pastor Silvério que vamos adiar o casamento pra daqui a três semanas, e que a noiva vai dar à luz! – ordenou ele ao turco.
O turco largou o saco de maconha no asfalto e entrou correndo no Templo, ao mesmo tempo em que o irlândes tropeçava em Olívia. Vladimir o aparou pela mão, quebrou em sua cabeça uma das garrafas de vodca e saiu correndo pela rua assim que o sinal ficou verde.
Escutou o homem que acertara dar um muxoxo e sucessivos gemidos de dor antes de desmaiar. Atravessou o vão entre dois Renault enquanto ouvia as buzinas dos carros e Liesel gritando:
_ Vladimir, eu vou ser mãe do seu filho biológico! O que está fazendo ?!
_ Estou buscando um médico! – berrou o psicólogo em resposta, pisando em um urso de pelúcia vermelho largado na calçada.
Abriu violentamente a porta do Hospital Aécio Neves e gritou:
_A ESCRITORA  MADALENA MACHINE VAI DAR À LUZ! ALGUÉM SE CANDIDATA PARA FAZER O PARTO ?!!!
Assim que detectaram o pseudônimo Madalena Machine, dezenas de médicos e enfermeiras viraram a cabeça rapidamente com avidez pura no olhar, como uma matilha de cães que sente cheiro de salsicha fresca.
Um tumulto de vozes começou, todos os funcionários do hospital se digladiavam para serem escolhidos. Vladimir apontou para o único médico que não se virara. Ele fez um chimite com a mão e berrou para que Olímpiel trouxesse Madalena para a sala A2 do Neves.
Subitamente, a mesma apareceu na porta, ofegante, com o vestido de noiva completamente rasgado e gritando os mais variados palavrões em inglês, português, alemão, grego, mandarim, japonês e sueco. Então gaguejou em português:
_ Se – se – se – se – senhor mé – mé – médico, salve meu filho!
_ Venha, senhorita Machine. Vai ficar tudo bem. – garantiu o médico, sorrindo tranquilizador, e conduziu calmamente Liesel até a sala A2. Algumas poucas enfermeiras e médicos o seguiram, apressados, confusos e morrendo de medo de Olímpiel e Machine.
Vladimir suspirou, feliz e aliviado. Arregalou os olhos de forma sinistra para assustar uma enfermeira mais jovem, o que funcionou. O gritinho dela foi maravilhosamente estridente. O psicólogo o saboreou e em seguida se sentou em uma das cadeiras verdes e confortáveis da sala de espera.
O bipe do seu relógio o acordou de um sonho em que estava observando o Comunista Hospício arder em chamas no meio do Cairo enquanto tomava sorvete de baunilha e suco de goiaba com Sakura, Liesel, o fantasma de Hitler, o fantasma de Sócrates, Bob Esponja, o fantasma de Camões e um antigo amigo da indústria pornográfica.
“ Droga, Alá, por que diabos o cochilo tinha que acabar ?” , pensou, sentindo uma raiva inexplicável do deus que adorava.
Olhou de relance o relógio digital. 12:30, no horário de São Paulo. Lembrou –se que a essa hora o velho serial killer por trás do e –mail silva_motherfucker1@brasilmail estaria espalhando o caos no Comunista Hospício, e sorriu malignamente.
Avisou uma das secretárias do hospital que ia sair por um tempo e lhe deu seu telefone para que ela pudesse ligar pra ele quando Madalena saísse da A2. Percebeu pelo olhar dela que detestara a ideia, mas a expressão furiosamente determinada dele a fez engolir em seco e assentir lentamente.
Uma vez fora do Hospital Aécio Neves, Vladimir fez uma prece pedindo que Alá cuidasse da alma de Gollum e de Olívia e terminou de rasgar a mochila. Pegou o tabuleiro de xadrez e se sentou na calçada, pretendendo disputar uma partida com o urso de pelúcia que encontrara antes. Após ajeitar o urso de modo que ficasse sentado de frente para ele, inspirou profundamente e disse:
_ Você começa.
Ouviu sirenes de polícia e uma música fúnebre. Em seguida visualizou uma viatura sendo seguida por um carro da Funerária Paulista Fernando Henrique Cardoso. Os dois veículos abriam caminho por entre o engarrafamento.
Notou que o irlandês também seguia a viatura, a pé. Deu um muxoxo de desprezo, beijou a cabeça suja do urso e voltou para o Neves.
Matou o tempo e não fez nada por várias horas, até que foi checar o e –mail (freudboy.v@brasilmail.com) pelo iPhone 2 e percebeu que sua maravilhosa filha havia lhe mandado uma história que havia escrito. Segundo ela, misturava drama, fantasia e ficção científica.
Abriu o anexo, e se deparou com o que a seus olhos pareceu a mais perfeita obra de arte:
“Na longuíqua ilha de Filologis Monera Boom 7.26, vivia um pescador troll. Seu nome era Maluquinho Samuele Fishguy, e ele tinha uma esposa elfa chamada Sara Wanda Romulox -Fishguy, centenas de concubinas sereias e dez filhos: Juan, Juanita, Ana, Fucker, Hook, Maluquinho Jr., Pig, Bela, Aurora e Mana. Os quatro últimos eram filhos da concubina Ticroti, Ana e Fucker eram filhos da concubina Megan, Juanita, Maluquinho Jr. e Hook eram filhos da esposa e Juan, o mais velho, era um garoto –urso que Maluquinho tinha adotado em sua primeira viagem para fora de Filologis, bem antes de se casar com Sara, quando tinha apenas nove concubinas: Bíblia, Luna, Lilith, Deméter, Ethos, Psique, Megan, Temari e Rachel.
Em Filologis, quando não estava pescando para pôr comida na mesa ( o que fazia quase o tempo todo), Maluquinho costumava ler o Eletricus, livro sagrado de sua religião, para Pig e Hook, que queriam ser sacerdotes e espalhar sua fé por todo o sistema solar. Também brincava de esconde – esconde com Aurora e Mana e ensinava a Juan e Fucker os princípios do ofício de ferreiro, já que seguir esse ofício era o sonho deles e o pai tinha feito um curso de forja em Marte. Bela, Maluquinho Jr., Juanita e Ana não ligavam muito para a família, já que eram obcecados por origami, quebra – cabeças, contos eróticos e botânica.
Maluquinho era muito apegado à sua família e às suas concubinas, principalmente a Juan, Sara, Aurora, Hook, Mana, Lilith, Deméter, Fucker e Ethos. Com esses nove aos quais era mais apegado, tinha muitas boas memórias de anos passados, quando competiam para ver quem conseguia roubar mais frutos – proibidos ( uma fruta deliciosa nativa da ilha) das hortas dos vizinhos burgueses. Antigamente, quem vencia ganhava um pedaço da torta que Sara e Hook faziam misturando semente de fruto – proibido, tabaco e pérolas que Lilith tirava das conchas do fundo do oceano.
Eles não faziam mais isso desde alguns anos atrás, quando Sara  havia pegado a Peste do Arco – Íris, uma doença hedionda e muitas vezes letal que, segundo todos os médicos de sete mil sistemas solares ( o que equivalia a 6216000 planetas) bem longe de  Apul Gypikro ( o planeta onde a ilha ficava), era completamente incurável.
Sara sobrevivia estoicamente dia após dia apenas graças à sua própria força de vontade e o fato de que Psique e Temari eram magas e sabiam fazer magias de cura paliativas.
Maluquinho pensava tristemente nisso tudo enquanto se embrenhava nos pinheiros artificial da floresta artificial do zumbi Jack  Reficúl, um de seus vizinhos burgueses, para pegar um atalho até Trollshire, o beco habitado por  seus primos e arquinimigos alcóolatras, onde vendia seus peixes para o rei de Filologis, James Hook, um pirata tirano que se aliava a trolls mendigos anarquistas ( que aliás tinham seu Sindicato presidido pelos antes citados primos trolls alcóolatras de Maluquinho), zumbis burgueses e robôs fazendeiros ( esses três grupos compunham a elite da ilha) para se manter no poder, e em homenagem ao sobrenome do qual Maluquinho fora obrigado a nomear seu quarto filho, fato com o qual o pescador nunca se conformaria.
Após sair da floresta artificial, Maluquinho alugou uma cesta de pele de unicórnio por 12 crânios ( o nome do dinheiro da ilha), pôs seus peixes nela e entrou em Trollshire. Sentiu o desagradavelmente familiar cheiro de fezes de troll e soube com certeza que, ao contrário do que pedira na última prece ao seu deus, ele não acordaria e perceberia que sua vida miserável fora um sonho e que estava deitado ao lado de Sara, Lilith, Deméter e Ethos no tapete do castelo do rei, com a coroa feita de bronze repousando suavemente na cabeça.
As rotineiras lágrimas de frustração começaram a cair novamente, porém o pescador seguiu em frente, caminhando pesaroso em direção aos primos, que seguravam garrafas de aguardente de fruto – proibido e o xingavam , como sempre.
_ Olá, cavalheiros – o pescador os cumprimentou usando o bordão usual.
_ Ma, seu idota energúmeno! Seu pedaço de bosta! Como vão os bastardinhos sacerdotes, seu lixo ?!! – berraram em uníssono os quatorze primos, respondendo ao bordão dele também como sempre.
_ Pig e Hook estão bem...cavalheiros. – Maluquinho sabia até o falso tom reticente tinha que ser calculado, que tinha que seguir rigidamente a ordem do diálogo que os primos haviam lhe imposto como punição por rouba –los décadas atrás, ou eles não comprariam os peixes e no fim daquela semana faltariam alguns crânios, ou seja, Juan, as concubinas e Sara teriam que limpar os chiqueiros dos fazendeiros novamente para ajudar a sustentar a família. E Sara estava piorando, ele mereceria ser condenado ao Vulcão Magnético se ela tivesse que fazer aquilo de novo!
_ Ficamos aterrorizados de saber, seu maricas! Os bastardinhos já deveriam ter sido possuídos há tempos pelos demônios do Eletricus, sabe ? – sussurraram os primos, abrindo seus costumeiros sorrisos cínicos.
_ Com certeza, cavalheiros. Minha religião é ultrapassada, como os pelos pubianos da minha avó, com a qual  vocês fornicaram ano passado no cemitério particular do rei James... né ? – após aparentar calma, submissão e tom brincalhão mais uma vez, Maluquinho se imaginou sendo devorado por unicórnios – tubarões. O ódio de si mesmo crescia a cada dia, mas sua família contava com ele. E isso era tudo que o pescador tinha, além das viagens raras para planetas longínquos.
_ Hu, hu... podemos chegar ao pescado, insignificante ?!!! A sua etnia não possui um cérebro bom ou memória minimamente razoável para se lembrar que somos seus compradores, certamente.  – murmuram os primos maldosamente, enquanto dividiam entre si mais uma garrafa de aguardente.
_ Como quiserem, etnias superiores. Sirvam – se. – depois que falou aquilo em falsete, o diálogo que precisava seguir todos os dias acabou. Os primos, de forma usual, tiraram a cesta de peixes da mão dele, escarraram em cima, fizeram um lento e costumeiro cálculo mental e lhe estenderam 195 crânios.” , leu em sua mente, se sentindo alegremente anestesiado.
Alguns minutos depois, a secretária de antes veio lhe avisar que em alguns minutos Madalena Machine e o filho sairiam da sala A2. Vladimir deu um grito esganiçado de alegria.