sábado, 27 de dezembro de 2014

Mais parágrafos de " Vladimir"

Ficou rezando para Alá enquanto esperava. Logo Liesel chegou com o bebê Werther nos braços. Ele era uma perfeita mistura do sangue chinês do pai de Olímpiel, do sangue espanhol da mãe do mesmo, do sangue alemão do pai de Liesel e do sangue nigeriano da mãe dela. Depois de chorar por alguns minutos ao ver ao filho ( ato involuntariamente imitado por Liesel, que murmurava “ Eu te odeio, Olímpiel, mas estou emocionada com o nosso lindo filho!” ), o psicólogo disse em sueco à ex – mulher, para conferir um tom de privacidade à conversa:
_ Na próxima semana quero levar Werther à Grécia para conhecer minhas mães adotivas e meus irmãos.
A escritora fez uma expressão de perplexidade e respondeu em japonês:
_ A sua loucura voltou ?!!!! Ele é extremamente prematuro, nem vai ser criado por você e ainda quer leva –lo a outro país! Além disso, seu avô é um viciado em heroína, suas mães têm câncer e seus irmãos vão querer com certeza leva –lo àquele circo estúpido deles, onde ele pode ficar surdo com tanto barulho!
Ao que ele contra – argumentou em grego:
_ Vou pedir para minhas irmãs cuidarem dele... e você sabe que Sakura vai estar comigo... ela é muito responsável, graças a você, e vai manter Werther longe do vovô e do Circo de Dioniso. Sem falar que ver seu primeiro neto poderia fazer minhas mães esquecerem por um momento a quimioterapia. Ah, quase esqueci... ambos sabemos que, obviamente, vou criar meu filho!!
De um jeito que pareceu repentino e inconsequente a Olímpiel, a escritora berrou em português:
_ VAI CRIAR PORRA NENHUMA! MAJIN ESTÁ PREPARADO PARA SER PAI, NÃO VOCÊ! E NÃO VOU PRIVAR MIKE JR. DE TER UM IRMÃO!!!!!!!!!!!!
A secretária que ele assustara antes se sobressaltou com o berro de Liesel e perguntou, alarmada:
_ A senhora tá se sentindo bem, senhora Machine ? Posso arrumar um remédio pra depressão pós – parto e...
_ Estou bem... jovenzinha, agradeço. – disse Liesel para a secretária, forçando um sorriso brando, e em seguida acrescentou em um murmúrio quase inaudível para Vladimir: _ Vamos parar de brigar, senão Werther pode começar a chorar.
_  Concordo totalmente. Vou sair pra tomar uma cerveja ali no Eom Pub e te encontro daqui a quatro dias lá para conversarmos mais calmamente sobre isso, tudo bem ? – sussurrou o psicólogo em mandarim.
Ela desatou a rir nervosamente. Um olhar de atordoamento deprimido cruzou seus olhos e a mãe murmurou em sueco, com uma pontada muito audível de raiva na voz:
_ Se um dia eu não quis enxergar que você é um louco psicopata, esse dia já passou faz tempo. Como pode sair pra se embebedar quando seu segundo filho nasceu ?!!!
 O iPhone 2 apitou. Liesel mostrou o dedo do meio para Vladimir e entrou junto com Werther  em outra sala do Neves. Vladimir se entristeceu e chorou baixinho por alguns poucos minutos. Em seguida começou a usar o iPhone e percebeu que tinha recebido outro e –mail de sua filha, desta com um anexo que continha o resto até então escrito da história anterior:
“O pinguim Utgard Darkland estava soltando pipa no jardim de seu castelo enquanto sua irmã gêmea Alfheim Sara Júlia Darkland ouvia heavy metal no Ipod que seu avô materno jupiteriano – legendiano - chinês, Heráclito Tsé – Tung Noel, lhe dera. Os dois irmãos eram inseparáveis e viviam aventuras divertidas explorando a Península Japonesa junto com seu mordomo Girafa, uma girafa albina macho.
Infelizmente, a parte colorida da pipa de Utgard se enroscou em uma árvore próxima. Ele começou a chorar e berrar. Alarmes de incêndio começaram a soar no castelo. Alfheim revirou os olhos impacientemente para o irmão.
De repente, Heráclito Tsé – Tung Noel saiu do castelo pela ponte levadiça, que havia sido abaixada. Ele se vestia como um Papai Noel daqueles de shopping, só com um elmo de cavaleiro das Cruzadas terráqueas no lugar do gorro e chinelos marrons rasgados no lugar das botas.  Tinha uma barbicha e um bigode ralo pintados da cor de vinho, tinha as características físicas usuais de um chinês, porém possuía uma cabeça verde gelatinosa, antenas laranjas, rabo bifurcado vermelho e olhos completamente azuis como o céu, sem pupila. Ostentava no braço esquerdo uma tatuagem colorida da bandeira da extinta União Soviética.
_ Está tudo bem, Utgard ? – perguntou ele em  ierodaugníl.
Vruuuuummm, fez o carrinho. Os trilhos reagiram, brilhando com uma luz rósea. Suor escorreu pela testa de pato do passageiro mais magro. Fumaça era tragada por ele, que mordia um charuto cor de sorvete de baunilha enquanto os trilhos soltavam faíscas laranjas e o passageiro mais velho berrava em árabe porque o desespero o consumia. Sua prima gorda estava extremamente calma, com um raio de Zeus a tiracolo e uma Bíblia a seu lado, bebendo de uma taça cheia de vinho.
“ Testa de Pato” observou alarmado enquanto o carrinho se aproximava de uma curva da montanha – russa. Praguejou ao ver o contrato que seu pai acabara de assinar ser levado pelo vento no início da curva. Os pedaços de papel grampeados voaram em direção a um poço de fogo no meio da curva.
De forma súbita, os trilhos da montanha russa caíram e o carrinho despencou no vazio. A gorda arregalou os olhos e beijou a testa do velho. “ Testa de Pato” ouviu uma reza resignada escapar dos lábios sujos de vinho dela.
_ Vamos cair no Vulcão Magnético! – gritou o velho em árabe, ao mesmo tempo em que a gorda jogava o raio de Zeus embaixo do carrinho. Uma descarga elétrica inigualável aconteceu, e o carrinho foi eletrocutado.
A porta do prédio foi aberta e um mendigo vestindo trapos e segurando um caderno de capa vermelha entrou. O porteiro, que observava as imagens captadas pelas câmeras de segurança do exterior e interior do edifício enquanto mascava um chiclete distraidamente, olhou desconfiado para o recém – chegado:
_ Quem é você ? – perguntou bem rispidamente para o mendigo.
_  Rehtorb  Ummirg, senhor. Vim discutir um assunto urgente com Antônio Ricardo Filho... ele está ? – perguntou com uma voz serena ele.
_ Saiu. O doutor quer que eu deixe algum aviso ? – disse o porteiro, mudando o tom de voz e assumindo uma postura servil.
_ Não é necessário, Hopkins. – Ummirg abriu um sorriso malicioso, como quem sabia de algum terrível segredo.
_ Perdão... o doutor me co – co – co – conhece ?! – gaguejou o porteiro, iniciando uma descontrolada roída de unhas.” , leu o psicólogo novamente. Mais uma vez se sentiu anestesiado.
“ Minha filha é uma verdadeira artista” , pensou ele com orgulho.











Nenhum comentário:

Postar um comentário