Ficou rezando para Alá enquanto esperava. Logo Liesel chegou
com o bebê Werther nos braços. Ele era uma perfeita mistura do sangue chinês do
pai de Olímpiel, do sangue espanhol da mãe do mesmo, do sangue alemão do pai de
Liesel e do sangue nigeriano da mãe dela. Depois de chorar por alguns minutos
ao ver ao filho ( ato involuntariamente imitado por Liesel, que murmurava “ Eu
te odeio, Olímpiel, mas estou emocionada com o nosso lindo filho!” ), o
psicólogo disse em sueco à ex – mulher, para conferir um tom de privacidade à
conversa:
_ Na próxima semana quero levar Werther à Grécia para
conhecer minhas mães adotivas e meus irmãos.
A escritora fez uma expressão de perplexidade e respondeu em
japonês:
_ A sua loucura voltou ?!!!! Ele é extremamente prematuro,
nem vai ser criado por você e ainda quer leva –lo a outro país! Além disso, seu
avô é um viciado em heroína, suas mães têm câncer e seus irmãos vão querer com
certeza leva –lo àquele circo estúpido deles, onde ele pode ficar surdo com
tanto barulho!
Ao que ele contra – argumentou em grego:
_ Vou pedir para minhas irmãs cuidarem dele... e você sabe
que Sakura vai estar comigo... ela é muito responsável, graças a você, e vai
manter Werther longe do vovô e do Circo de Dioniso. Sem falar que ver seu
primeiro neto poderia fazer minhas mães esquecerem por um momento a
quimioterapia. Ah, quase esqueci... ambos sabemos que, obviamente, vou criar
meu filho!!
De um jeito que pareceu repentino e inconsequente a
Olímpiel, a escritora berrou em português:
_ VAI CRIAR PORRA NENHUMA! MAJIN ESTÁ PREPARADO PARA SER
PAI, NÃO VOCÊ! E NÃO VOU PRIVAR MIKE JR. DE TER UM IRMÃO!!!!!!!!!!!!
A secretária que ele assustara antes se sobressaltou com o
berro de Liesel e perguntou, alarmada:
_ A senhora tá se sentindo bem, senhora Machine ? Posso
arrumar um remédio pra depressão pós – parto e...
_ Estou bem... jovenzinha, agradeço. – disse Liesel para a
secretária, forçando um sorriso brando, e em seguida acrescentou em um murmúrio
quase inaudível para Vladimir: _ Vamos parar de brigar, senão Werther pode
começar a chorar.
_ Concordo
totalmente. Vou sair pra tomar uma cerveja ali no Eom Pub e te encontro daqui a
quatro dias lá para conversarmos mais calmamente sobre isso, tudo bem ? –
sussurrou o psicólogo em mandarim.
Ela desatou a rir nervosamente. Um olhar de atordoamento
deprimido cruzou seus olhos e a mãe murmurou em sueco, com uma pontada muito
audível de raiva na voz:
_ Se um dia eu não quis enxergar que você é um louco
psicopata, esse dia já passou faz tempo. Como pode sair pra se embebedar quando
seu segundo filho nasceu ?!!!
O iPhone 2 apitou.
Liesel mostrou o dedo do meio para Vladimir e entrou junto com Werther em outra sala do Neves. Vladimir se
entristeceu e chorou baixinho por alguns poucos minutos. Em seguida começou a
usar o iPhone e percebeu que tinha recebido outro e –mail de sua filha, desta
com um anexo que continha o resto até então escrito da história anterior:
“O pinguim Utgard Darkland estava
soltando pipa no jardim de seu castelo enquanto sua irmã gêmea Alfheim Sara
Júlia Darkland ouvia heavy metal no Ipod que seu avô materno jupiteriano –
legendiano - chinês, Heráclito Tsé – Tung Noel, lhe dera. Os dois irmãos eram
inseparáveis e viviam aventuras divertidas explorando a Península Japonesa
junto com seu mordomo Girafa, uma girafa albina macho.
Infelizmente, a parte colorida da
pipa de Utgard se enroscou em uma árvore próxima. Ele começou a chorar e
berrar. Alarmes de incêndio começaram a soar no castelo. Alfheim revirou os
olhos impacientemente para o irmão.
De repente, Heráclito Tsé – Tung
Noel saiu do castelo pela ponte levadiça, que havia sido abaixada. Ele se
vestia como um Papai Noel daqueles de shopping, só com um elmo de cavaleiro das
Cruzadas terráqueas no lugar do gorro e chinelos marrons rasgados no lugar das
botas. Tinha uma barbicha e um bigode
ralo pintados da cor de vinho, tinha as características físicas usuais de um
chinês, porém possuía uma cabeça verde gelatinosa, antenas laranjas, rabo
bifurcado vermelho e olhos completamente azuis como o céu, sem pupila.
Ostentava no braço esquerdo uma tatuagem colorida da bandeira da extinta União
Soviética.
_ Está tudo bem, Utgard ? –
perguntou ele em ierodaugníl.
Vruuuuummm, fez o carrinho. Os trilhos reagiram, brilhando com uma
luz rósea. Suor escorreu pela testa de pato do passageiro mais magro. Fumaça
era tragada por ele, que mordia um charuto cor de sorvete de baunilha enquanto
os trilhos soltavam faíscas laranjas e o passageiro mais velho berrava em árabe
porque o desespero o consumia. Sua prima gorda estava extremamente calma, com
um raio de Zeus a tiracolo e uma Bíblia a seu lado, bebendo de uma taça cheia
de vinho.
“ Testa de Pato” observou
alarmado enquanto o carrinho se aproximava de uma curva da montanha – russa.
Praguejou ao ver o contrato que seu pai acabara de assinar ser levado pelo
vento no início da curva. Os pedaços de papel grampeados voaram em direção a um
poço de fogo no meio da curva.
De forma súbita, os trilhos da montanha russa caíram e o
carrinho despencou no vazio. A gorda arregalou os olhos e beijou a testa do
velho. “ Testa de Pato” ouviu uma reza resignada escapar dos lábios sujos de
vinho dela.
_ Vamos cair no Vulcão Magnético! – gritou o velho em árabe,
ao mesmo tempo em que a gorda jogava o raio de Zeus embaixo do carrinho. Uma
descarga elétrica inigualável aconteceu, e o carrinho foi eletrocutado.
A porta do prédio foi aberta e um mendigo vestindo trapos e
segurando um caderno de capa vermelha entrou. O porteiro, que observava as
imagens captadas pelas câmeras de segurança do exterior e interior do edifício
enquanto mascava um chiclete distraidamente, olhou desconfiado para o recém –
chegado:
_ Quem é você ? – perguntou bem rispidamente para o mendigo.
_ Rehtorb Ummirg, senhor. Vim discutir um assunto
urgente com Antônio Ricardo Filho... ele está ? – perguntou com uma voz serena
ele.
_ Saiu. O doutor quer que eu deixe algum aviso ? – disse o
porteiro, mudando o tom de voz e assumindo uma postura servil.
_ Não é necessário, Hopkins. – Ummirg abriu um sorriso
malicioso, como quem sabia de algum terrível segredo.
_ Perdão... o doutor me co – co – co – conhece ?! – gaguejou
o porteiro, iniciando uma descontrolada roída de unhas.” , leu o psicólogo
novamente. Mais uma vez se sentiu anestesiado.
“ Minha filha é uma verdadeira artista” , pensou ele com orgulho.