sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Segundo: início de história sem nome

A espada foi fincada na pedra. O padre que a  havia fincado e  a segurava pelo cabo, um homem inglês, branco e idoso que tinha cabelos branco – acinzentados e usava óculos roxos que combinavam com a batina e o sapato ( pois o outro pé estava descalço), começou a entoar cânticos obscuros e macabros em uma língua que era uma mistura confusa de grego antigo, latim, árabe e hebraico. Uma fenda feita de energia mágica vermelha se formou na pedra enquanto o padre continuava a cantar.
A fenda foi crescendo à medida que o padre levantava cada vez mais a voz, até que cobriu toda a pedra. Suor escorreu da testa dele, que apesar de estar segurando a espada e cantando há apenas cinco minutos, já perdia energia e sentia fome e muito sono por tudo que aquela invocação exigia de seus poderes.
Vinte e cinco agonizantes minutos depois, um zumbido e um gemido escaparam da fenda e ele soube que o processo estava completo. Exausto, soltou o cabo da espada, e uma criatura de pele escamosa vermelho – sangue, asas brancas com manchas douradas resplandecentes e cabeça de serpente cor de carvão vestindo um terno branco com paletó preto, chapéu preto, sapatos azul – bebê e gravata – borboleta cor de vinho tinto saiu se arrastando da fenda em direção ao padre.
_ Olá, meu caro padre Fawkes – cumprimentou com uma voz sibilante, semelhante ao som de uma cobra, a criatura em latim depois de se levantar da grama verdíssima.
_ Meu nome não é esse, Oliver– respondeu o padre na mesma língua, franzindo o cenho e o rosto.
_ Deixe de formalidades e intrigas, velho Fawkes! – impacientou –se a criatura, irritada – Sei que quer esconder o legado do seu antepassado frouxo da Conspiração da Pólvora, mas é inútil usar codinomes para comunicação. Eu não preciso te chamar de Jack Jones tanto quanto você não precisa me chamar de Oliver Smith. Ambos sabemos que você é Xing Fawkes e que eu sou Lúcifer. – a criatura sibilou aquilo em um  tom calmo, porém imperativo e indubitável.
Um arrepio percorreu a espinha do padre. Seu nome saíra da boca do Diabo!
_ Sua alma se desvanece de medo, não é, seu covarde ?!!!! Sim! Assim como deve ser! – exclamou Lúcifer, satisfeito, balançando as asas resplandecentes e a língua bifurcada.
_ Sem dúvida, Vossa Infinitude. – Fawkes disse, conseguindo não gaguejar e se ajoelhando em frente à criatura. _ Todos devem temer o monstro que superará Deus.
_ Humpf, obviamente! Você é uma partícula de poeira insignificante, velho Fawkes! – gritou com desprezo evidente o invocado, revirando os olhos.
_ Novamente não há duvidas disso, Vossa Infinitude. – murmurou em tom de resignação o invocador, assentindo com a cabeça na direção do Diabo.
_ Agora que esta porra está perfeitamente clara, iremos conversar sobre o modo deplorável que a sua insignificância escolheu para invocar a perfeição encarnada, eu. Foi ofensivo pra caralho, seu terreno perdedor!!!!! Eu, o inatingível Lúcifer, tive que ME ARRASTAR PARA FORA DO PORTAL!!!!!!!!!!!!!!!!!! ISSO É IMPERDOÁVEL!!!!!!!!!!!!! UM SERVO NÃO FAZ ESTA INJÚRIA QUE UM LIXO COMO VOCÊ ME FEZ, FAWKES!!!!!!!!!!!!!!!!!! – urrou de puro ódio o Diabo, enquanto agarrava o padre pelo pescoço e o erguia na altura de  seu peito.
_ Infinitos perdões, Vossa Infinitude!!! Peço a vós infinitos perdões!!!!!!!!!!! Não se perdoa algo que é imperdoável, mas catastroficamente eu não tinha como conseguir os materiais e itens necessários para uma invocação perfeitamente adequada para a ocasião!!!!!! Me perdoe, meu amo!!!!!!!! – berrou implorando e guinchando de pânico Xing, que estava enlouquecidamente desesperado e chorando copiosamente.
_ NÃO ESTÁ DE MODO ALGUM PERDOADO, INSOLENTE MALDITO! – urrou Lúcifer, encostando a língua bifurcada no ponto onde ficava localizado o coração de Fawkes, coração este que batia como um tambor de guerra. O padre já começara a sentir dores inigualavelmente excruciantes  no peito, nos ouvidos e na cabeça.
Enquanto eles conversavam, o  vento uivou e a lua brilhou. Moradores de todo o  condado de Yorkshire começaram a sair de suas casas e agredir, despedaçar e queimar os bonecos que  com a imagem do conspirador Guy Fawkes que eles próprios desfilavam, mantendo a tradição da Noite das Fogueiras no dia 5 de novembro.
Após o começo daquilo, o Diabo se dissolveu em uma luz branca e desapareceu. O padre despencou no chão, ainda chorando, e se arrastou até perto da pedra, onde dormiu um sono extremamente perturbado, no qual continuou a chorar e acordou quarenta e nove vezes.
Cláudia viu, enquanto bebericava sua cerveja, o homem loiro de cabelos cacheados, alto, negro e tatuado ( suas tatuagens eram as seguintes: uma Estrela de Davi no braço direito, uma bandeira do Vaticano no rosto e uma espada ao lado de uma harpa no braço esquerdo) vestindo smokig rosa pink tragar muitos Malboros de uma só vez. Ela também reparou que uma jaqueta de aviador com manchas de tinta cobria o paletó do smoking. Esta, por sua vez, era coberta por uma jaqueta com a estampa do Exército israelense
Interessada, resolveu se aproximar. Não entendia como alguém podia ser negro e loiro ao mesmo tempo. E não restavam dúvidas de que o cabelo do homem não era tingido. Cláudia tinha experiência nisso, já que sua mãe era a cabeleleira mais conceituada e famosa de Campo Grande, e a obrigava a filha a ajuda –la quando tingia o cabelo dos clientes.
Ademais, por que ele teria uma Estrela de Davi e uma bandeira do Vaticano tatuadas ?
Além disso, sua namorada atual era uma jornalista nativa de Yorkshire que conhecia cada detalhe da vida de todos os moradores do condado. Como Cláudia ouvia absolutamente tudo que ela falava, tinha certeza que esse homem desconhecido nunca havia estado em Yorkshire até aquele dia.
Quando chegou ao balcão do bar, com a cerveja já pela metade, ela esqueceu  -se de controlar seu hábito irritante e cutucou o homem. Seu tato extremamente sensível identificou, através da jaqueta, do paletó e do terno, duas asas de pássaro enormes.
Cláudia arregalou os olhos, assustada e emocionada simultaneamente. Seus anos na faculdade de Ufologia do Arizona pareceram finalmente fazer algum sentido.
“ Encontrei um alienígena na Terra! Eureca!”, ela pensou feliz.
O homem desconhecido se virou para a brasileira e lhe lançou um olhar sombriamente perturbador. A boca de Cláudia ficou seca em seguida.
_ Boa tarde, senhor – a língua de Cláudia pareceu ter funcionado sozinha, e, pior ainda, ela falou em português em um bar inglês.
Ele disse algo incompreensível em uma língua desconhecida, mas por algum motivo ela gelou, sentiu sua pele se arrepiar e seu sangue parar de correr.
_ Desculpe, não entendo seu idioma, senhor. – sussurrou aterrorizada a brasileira em inglês, sentindo sua pulsação diminuir drasticamente.
 Outro murmúrio incompreensível saiu dos lábios ressecados do homem alado. A expressão dele demonstrava profunda hostilidade. Por instinto, ela tocou com a ponta do anelar o spray de pimenta que sempre carregava na bolsa Chanel.
Ele se levantou e tirou seus coturnos de pele de gato.  Um arquejo escapou dos lábios da brasileira quando ela percebeu que os pés dele eram completamente necrosados, com buracos, hematomas e incontáveis infecções.
_ Já entendi, o senhor irá me espantar de qualquer maneira possível! – exclamou Cláudia em inglês, sem querer deixando seu sotaque americano ( adquirido no Arizona) aflorar escandalosamente.
O alado assentiu e lhe deu um chute no rosto. Isso fez Cláudia cair de costas no chão. Ela soltou uma dúzia de palavrões em russo enquanto tentava estancar o sangue que jorrava  do nariz. Vários minutos depois, quando a dor começou a diminuir, a mulher se lembrou que um pé necrosado havia agredido seu nariz, e desatou a vomitar a cerveja que havia tomado.
Horas depois, se levantou apoiando – se nos cotovelos e notou que na cena em que caíra no chão o tempo tinha parado, como quando se aperta PAUSE em um filme. As pessoas no bar riam sorrisos congelados e bebiam de copos estáticos. Beberrões brigavam parados como se posassem para uma foto que nunca seria tirada. Um casal se beijava como se um escultor quisesse esculpir meticulosamente os dois. E o estranho alado havia desaparecido, assim como o copo de Cláudia.
Ela ficou em choque, imaginando por um tempo que pareceu uma eternidade se o estranho alado realmente havia parado o tempo, e se tivesse, como. Quase instintivamente e sem perceber, a ufóloga andou para fora do bar para ver se o tempo também havia parado por lá.
A resposta imediata encontrada foi não. O tempo corria normalmente. Atordoada, ela caminhou sem rumo pela rua


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