A
espada foi fincada na pedra. O padre que a havia fincado e a segurava pelo cabo, um homem inglês, branco e idoso que tinha cabelos branco –
acinzentados e usava óculos roxos que combinavam com a batina e o sapato ( pois
o outro pé estava descalço), começou a entoar cânticos obscuros e macabros em
uma língua que era uma mistura confusa de grego antigo, latim, árabe e
hebraico. Uma fenda feita de energia mágica vermelha se formou na pedra
enquanto o padre continuava a cantar.
A fenda foi crescendo à medida que o padre levantava cada
vez mais a voz, até que cobriu toda a pedra. Suor escorreu da testa dele, que
apesar de estar segurando a espada e cantando há apenas cinco minutos, já
perdia energia e sentia fome e muito sono por tudo que aquela invocação exigia
de seus poderes.
Vinte e cinco agonizantes minutos depois, um zumbido e um
gemido escaparam da fenda e ele soube que o processo estava completo. Exausto,
soltou o cabo da espada, e uma criatura de pele escamosa vermelho – sangue,
asas brancas com manchas douradas resplandecentes e cabeça de serpente cor de
carvão vestindo um terno branco com paletó preto, chapéu preto, sapatos azul –
bebê e gravata – borboleta cor de vinho tinto saiu se arrastando da fenda em
direção ao padre.
_ Olá, meu caro padre Fawkes – cumprimentou com uma voz
sibilante, semelhante ao som de uma cobra, a criatura em latim depois de se
levantar da grama verdíssima.
_ Meu nome não é esse, Oliver– respondeu o padre na mesma
língua, franzindo o cenho e o rosto.
_ Deixe de formalidades e intrigas, velho Fawkes! –
impacientou –se a criatura, irritada – Sei que quer esconder o legado do seu
antepassado frouxo da Conspiração da Pólvora, mas é inútil usar codinomes para
comunicação. Eu não preciso te chamar de Jack Jones tanto quanto você não
precisa me chamar de Oliver Smith. Ambos sabemos que você é Xing Fawkes e que
eu sou Lúcifer. – a criatura sibilou aquilo em um tom calmo, porém imperativo e indubitável.
Um arrepio percorreu a espinha do padre. Seu nome saíra da
boca do Diabo!
_ Sua alma se desvanece de medo, não é, seu covarde ?!!!!
Sim! Assim como deve ser! – exclamou Lúcifer, satisfeito, balançando as asas
resplandecentes e a língua bifurcada.
_ Sem dúvida, Vossa Infinitude. – Fawkes disse, conseguindo
não gaguejar e se ajoelhando em frente à criatura. _ Todos devem temer o
monstro que superará Deus.
_ Humpf, obviamente! Você é uma partícula de poeira
insignificante, velho Fawkes! – gritou com desprezo evidente o invocado,
revirando os olhos.
_ Novamente não há duvidas disso, Vossa Infinitude. –
murmurou em tom de resignação o invocador, assentindo com a cabeça na direção
do Diabo.
_ Agora que esta porra está perfeitamente clara, iremos
conversar sobre o modo deplorável que a sua insignificância escolheu para
invocar a perfeição encarnada, eu. Foi ofensivo pra caralho, seu terreno
perdedor!!!!! Eu, o inatingível Lúcifer, tive que ME ARRASTAR PARA FORA DO
PORTAL!!!!!!!!!!!!!!!!!! ISSO É IMPERDOÁVEL!!!!!!!!!!!!! UM SERVO NÃO FAZ ESTA
INJÚRIA QUE UM LIXO COMO VOCÊ ME FEZ, FAWKES!!!!!!!!!!!!!!!!!! – urrou de puro
ódio o Diabo, enquanto agarrava o padre pelo pescoço e o erguia na altura de seu peito.
_ Infinitos perdões, Vossa Infinitude!!! Peço a vós
infinitos perdões!!!!!!!!!!! Não se perdoa algo que é imperdoável, mas
catastroficamente eu não tinha como conseguir os materiais e itens necessários
para uma invocação perfeitamente adequada para a ocasião!!!!!! Me perdoe, meu
amo!!!!!!!! – berrou implorando e guinchando de pânico Xing, que estava
enlouquecidamente desesperado e chorando copiosamente.
_ NÃO ESTÁ DE MODO ALGUM PERDOADO, INSOLENTE MALDITO! –
urrou Lúcifer, encostando a língua bifurcada no ponto onde ficava localizado o
coração de Fawkes, coração este que batia como um tambor de guerra. O padre já
começara a sentir dores inigualavelmente excruciantes no peito, nos ouvidos e na cabeça.
Enquanto eles conversavam, o vento uivou e a lua brilhou. Moradores de todo
o condado de Yorkshire começaram a sair
de suas casas e agredir, despedaçar e queimar os bonecos que com a imagem do conspirador Guy Fawkes que
eles próprios desfilavam, mantendo a tradição da Noite das Fogueiras no dia 5 de
novembro.
Após o começo daquilo, o Diabo se dissolveu em uma luz
branca e desapareceu. O padre despencou no chão, ainda chorando, e se arrastou
até perto da pedra, onde dormiu um sono extremamente perturbado, no qual
continuou a chorar e acordou quarenta e nove vezes.
Cláudia viu, enquanto bebericava sua cerveja, o homem loiro
de cabelos cacheados, alto, negro e tatuado ( suas tatuagens eram as seguintes:
uma Estrela de Davi no braço direito, uma bandeira do Vaticano no rosto e uma
espada ao lado de uma harpa no braço esquerdo) vestindo smokig rosa pink tragar
muitos Malboros de uma só vez. Ela também reparou que uma jaqueta de aviador
com manchas de tinta cobria o paletó do smoking. Esta, por sua vez, era coberta
por uma jaqueta com a estampa do Exército israelense
Interessada, resolveu se aproximar. Não entendia como alguém
podia ser negro e loiro ao mesmo tempo. E não restavam dúvidas de que o cabelo
do homem não era tingido. Cláudia tinha experiência nisso, já que sua mãe era a
cabeleleira mais conceituada e famosa de Campo Grande, e a obrigava a filha a
ajuda –la quando tingia o cabelo dos clientes.
Ademais, por que ele teria uma Estrela de Davi e uma
bandeira do Vaticano tatuadas ?
Além disso, sua namorada atual era uma jornalista nativa de
Yorkshire que conhecia cada detalhe da vida de todos os moradores do condado.
Como Cláudia ouvia absolutamente tudo que ela falava, tinha certeza que esse
homem desconhecido nunca havia estado em Yorkshire até aquele dia.
Quando chegou ao balcão do bar, com a cerveja já pela
metade, ela esqueceu -se de controlar
seu hábito irritante e cutucou o homem. Seu tato extremamente sensível
identificou, através da jaqueta, do paletó e do terno, duas asas de pássaro
enormes.
Cláudia arregalou os olhos, assustada e emocionada
simultaneamente. Seus anos na faculdade de Ufologia do Arizona pareceram finalmente
fazer algum sentido.
“ Encontrei um alienígena na Terra! Eureca!”, ela pensou
feliz.
O homem desconhecido se virou para a brasileira e lhe lançou
um olhar sombriamente perturbador. A boca de Cláudia ficou seca em seguida.
_ Boa tarde, senhor – a língua de Cláudia pareceu ter
funcionado sozinha, e, pior ainda, ela falou em português em um bar inglês.
Ele disse algo incompreensível em uma língua desconhecida,
mas por algum motivo ela gelou, sentiu sua pele se arrepiar e seu sangue parar
de correr.
_ Desculpe, não entendo seu idioma, senhor. – sussurrou
aterrorizada a brasileira em inglês, sentindo sua pulsação diminuir
drasticamente.
Outro murmúrio
incompreensível saiu dos lábios ressecados do homem alado. A expressão dele
demonstrava profunda hostilidade. Por instinto, ela tocou com a ponta do anelar
o spray de pimenta que sempre carregava na bolsa Chanel.
Ele se levantou e tirou seus coturnos de pele de gato. Um arquejo escapou dos lábios da brasileira
quando ela percebeu que os pés dele eram completamente necrosados, com buracos,
hematomas e incontáveis infecções.
_ Já entendi, o senhor irá me espantar de qualquer maneira
possível! – exclamou Cláudia em inglês, sem querer deixando seu sotaque
americano ( adquirido no Arizona) aflorar escandalosamente.
O alado assentiu e lhe deu um chute no rosto. Isso fez
Cláudia cair de costas no chão. Ela soltou uma dúzia de palavrões em russo
enquanto tentava estancar o sangue que jorrava
do nariz. Vários minutos depois, quando a dor começou a diminuir, a
mulher se lembrou que um pé necrosado havia agredido seu nariz, e desatou a
vomitar a cerveja que havia tomado.
Horas depois, se levantou apoiando – se nos cotovelos e
notou que na cena em que caíra no chão o tempo tinha parado, como quando se
aperta PAUSE em um filme. As pessoas no bar riam sorrisos congelados e bebiam
de copos estáticos. Beberrões brigavam parados como se posassem para uma foto
que nunca seria tirada. Um casal se beijava como se um escultor quisesse
esculpir meticulosamente os dois. E o estranho alado havia desaparecido, assim
como o copo de Cláudia.
Ela ficou em choque, imaginando por um tempo que pareceu uma
eternidade se o estranho alado realmente havia parado o tempo, e se tivesse,
como. Quase instintivamente e sem perceber, a ufóloga andou para fora do bar
para ver se o tempo também havia parado por lá.
A resposta imediata encontrada foi não. O tempo corria
normalmente. Atordoada, ela caminhou sem rumo pela rua
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