sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Primeiro post de verdade: Início de " Vladimir"

Vladimir
Capítulo 1
Vladimir Olímpiel pedalou até a igreja de bicicleta, levando seu diploma de Psicologia na mochila – verde limão, onde também carregava centenas de broches com temas de escoteiros, dezenas de latinhas Skol fechadas e cheias, seu diploma de Filosofia, dezenas de garrafas de vodca abertas e cheias, um iPhone 2, um tabuleiro de xadrez, seios de silicone falsos, um aquário com peixes beta dentro, um kit de mágica e uma garrafa de vinho cheia de uma mistura de sêmen de boi, vômito de sua filha, litros de pasta de dente e o equivalente a três xícaras de chá do próprio sangue.
Um pipoqueiro desdentado bloqueou seu caminho, berrando:
_ Tio, quer comprar pipoca ?!!! Só dois real, dois real, tô vendendo!
Antes que o cego pudesse responder, Gollum, seu cão – guia robótico que estivera seguindo a bicicleta, avisou sobre a breve chegada de uma das vans do Comunista Hospício. Vladimir ficou paralisado e desfaleceu.
Minutos depois, o pipoqueiro havia roubado a mochila, a bengala e os óculos escuros de Olímpiel, atropelado Gollum com o carrinho de pipoca e acendido um cigarro, ao mesmo tempo em que a noiva alemã grávida que iria se casar dali a quinze minutos no Templo de Salomão correra para acudir Vladimir, xingando o louco ex – marido em alemão, sem notar o que o pipoqueiro havia feito.
Olívia, a madrinha de casamento, saiu correndo só de calcinha da igreja para chamar a noiva, gritando:
_ Liesel! Seu filho adotivo voltou a fumar maconha!
Liesel, a noiva, se virou apenas a tempo de ver a van do Comunista Hospício atropelar sem querer Olívia, que com o impacto voou vários metros e bateu em um poste. Segundos depois, a calcinha fio – dental que ela usava caiu, revelando sua vagina.
Cadáver disponível para aulas de anatomia em Harvard, senhor reencarnação de Freud”, anunciou Gollum em sua voz robótica, como se estivesse conversando normalmente com o  Olímpiel no apartamento do psicólogo em Tóquio.
Liesel caiu no choro e não viu os funcionários bigodudos conversando em voz baixa com o pipoqueiro, que alegou ter sido forçado pelo cão – robô a fazer sexo oral com Vladimir e a noiva.
Os bigodudos acreditaram, então o pipoqueiro exigiu setenta e três mil reais em dinheiro vivo para não contar à polícia que o hospício deixara escapar um louco nas ruas de São Paulo.
Liesel ouviu um tiro e notou que o corpo agora sem vida do pipoqueiro tombara. O que se seguiu foi um cantar de pneus, e Vladimir, atordoado, começou a acordar e viu pelo canto do olho robótico a van do Comunista Hospício desaparecer no horizonte urbano enquanto um pipoqueiro com um cigarro na boca jazia morto, assim como sua melhor amiga, nua como na época em que os dois trabalhavam na indústria pornográfica.
“ Alá, salve –me”, pensou ele quando percebeu que, como se não bastasse, sua ex –mulher e único amor na vida além da Psicologia e do álcool, em um escandaloso ataque de histeria batia com um abajur na cabeça de seu melhor amigo e fiel companheiro Gollum, o maravilhoso cão –guia robótico, rpgista, químico, pintor e falador de um francês impecavelmente fluente.
Lágrimas sem substância física caíram dos olhos de Olímpiel, e ele rezou a Alá fervorosamente para que tudo aquilo fosse um sonho e ele acordasse de ressaca na cozinha do apartamento, rodeado de seus livros favoritos de Psicologia, Filosofia, Química, Dungeons & Dragons e História da Arte, e pudesse ver por uma última vez sua filha japonesa Sakura gritando animada “ Gollum, prepara o suco de goiaba! Meu pai acordou!”
Esperou que sua consciência despertasse após rezar e quis sentir o chão duro e sujo de vodca da cozinha, mas nada aconteceu. Olímpiel se levantou e recolheu sua mochila agora rasgada enquanto sentia um fortíssimo aperto no coração ao ver Gollum arder em chamas enquanto Liesel berrava um nome não familiar a ele:
_ Mike Jr!!
De repente, um homem irlândes fantasiado de Super – Homem com uma xícara de café na mão e um adolescente turco fantasiado de Ursinho Pooh arrastando um saco de um quilo de maconha pedalaram em monociclos amarelos para fora da igreja. Pararam em frente a Vladimir, e o homem jogou um walkie – talkie em seu rosto.
Aquilo acertou Olímpiel bem na ponta do nariz, e ele praguejou em japonês.
O adolescente desceu do monociclo e perguntou a Liesel em alemão, língua que o psicólogo aprendera a falar na quinta semana da lua de mel que teve com ela:
_ Mãe, por que a senhora Olívia está morta ? Esse seu ex – marido louco a matou ?
Ao que Liesel respondeu, soluçando.
_ De jeito nenhum, Mike Jr.! Ela foi atropelada por comunistas!
_ O que são comunistas ? – perguntou o turco, aparentando estar confuso.
O Super – Homem irritante pareceu estar explicando alguma coisa, mas o psicólogo não pôde ouvir, pois  a música “ Last Night On Earth”, da banda Green Day, se fez ouvir. Era o maravilhoso toque de seu celular. Olímpiel tirou o iPhone 2 da mochila. A tela exibia as palavras " Primogênita Flor Chamando” .
Ele selecionou a opção “ Atender”. O som da voz infantil surgiu:
_ Dattebayo, lorde Freud! Estais bem ?
Antes que pudesse responder, o celular foi derrubado no asfalto por aquela mão pálida que tanto amava. Sentindo uma mistura de carinho,  bem – estar, revolta, amargura e raiva, Vladimir urrou, se dirigindo a Liesel:
_ ERA A MINHA FILHA, SUA PUTA!
A sensação seguinte foi de dor intensa no momento em que o Super – Homem lhe deu um murro. Tudo ficou sombriamente escuro, horrível e familiar quando, por alguns instantes, quando seus olhos robóticos se desligaram automaticamente.
_ Amor, acho... acho... que e – e – e – estou dan – dan – dan – dan – dan –do à luz! – ouviu Liesel gaguejar, nervosa, e sorriu. Finalmente poderia ajuda –la. “ O futuro Werther é da minha semente, Alá me garantiuc isso”, pensou feliz.
Voltou a ver, e notou que o turco estava berrando:
_ Mãe, como assim o Werther vai nascer agora ?!! Você vai se casar com o pai em quatro minutos, e a senhora Olívia está morta!
_ Majin, me leve para o hospital! – pediu Liesel, olhando para o Super – Homem.
_ Jr., avise o pastor Silvério que vamos adiar o casamento pra daqui a três semanas, e que a noiva vai dar à luz! – ordenou ele ao turco.
O turco largou o saco de maconha no asfalto e entrou correndo no Templo, ao mesmo tempo em que o irlândes tropeçava em Olívia. Vladimir o aparou pela mão, quebrou em sua cabeça uma das garrafas de vodca e saiu correndo pela rua assim que o sinal ficou verde.
Escutou o homem que acertara dar um muxoxo e sucessivos gemidos de dor antes de desmaiar. Atravessou o vão entre dois Renault enquanto ouvia as buzinas dos carros e Liesel gritando:
_ Vladimir, eu vou ser mãe do seu filho biológico! O que está fazendo ?!
_ Estou buscando um médico! – berrou o psicólogo em resposta, pisando em um urso de pelúcia vermelho largado na calçada.
Abriu violentamente a porta do Hospital Aécio Neves e gritou:
_A ESCRITORA  MADALENA MACHINE VAI DAR À LUZ! ALGUÉM SE CANDIDATA PARA FAZER O PARTO ?!!!
Assim que detectaram o pseudônimo Madalena Machine, dezenas de médicos e enfermeiras viraram a cabeça rapidamente com avidez pura no olhar, como uma matilha de cães que sente cheiro de salsicha fresca.
Um tumulto de vozes começou, todos os funcionários do hospital se digladiavam para serem escolhidos. Vladimir apontou para o único médico que não se virara. Ele fez um chimite com a mão e berrou para que Olímpiel trouxesse Madalena para a sala A2 do Neves.
Subitamente, a mesma apareceu na porta, ofegante, com o vestido de noiva completamente rasgado e gritando os mais variados palavrões em inglês, português, alemão, grego, mandarim, japonês e sueco. Então gaguejou em português:
_ Se – se – se – se – senhor mé – mé – médico, salve meu filho!
_ Venha, senhorita Machine. Vai ficar tudo bem. – garantiu o médico, sorrindo tranquilizador, e conduziu calmamente Liesel até a sala A2. Algumas poucas enfermeiras e médicos o seguiram, apressados, confusos e morrendo de medo de Olímpiel e Machine.
Vladimir suspirou, feliz e aliviado. Arregalou os olhos de forma sinistra para assustar uma enfermeira mais jovem, o que funcionou. O gritinho dela foi maravilhosamente estridente. O psicólogo o saboreou e em seguida se sentou em uma das cadeiras verdes e confortáveis da sala de espera.
O bipe do seu relógio o acordou de um sonho em que estava observando o Comunista Hospício arder em chamas no meio do Cairo enquanto tomava sorvete de baunilha e suco de goiaba com Sakura, Liesel, o fantasma de Hitler, o fantasma de Sócrates, Bob Esponja, o fantasma de Camões e um antigo amigo da indústria pornográfica.
“ Droga, Alá, por que diabos o cochilo tinha que acabar ?” , pensou, sentindo uma raiva inexplicável do deus que adorava.
Olhou de relance o relógio digital. 12:30, no horário de São Paulo. Lembrou –se que a essa hora o velho serial killer por trás do e –mail silva_motherfucker1@brasilmail estaria espalhando o caos no Comunista Hospício, e sorriu malignamente.
Avisou uma das secretárias do hospital que ia sair por um tempo e lhe deu seu telefone para que ela pudesse ligar pra ele quando Madalena saísse da A2. Percebeu pelo olhar dela que detestara a ideia, mas a expressão furiosamente determinada dele a fez engolir em seco e assentir lentamente.
Uma vez fora do Hospital Aécio Neves, Vladimir fez uma prece pedindo que Alá cuidasse da alma de Gollum e de Olívia e terminou de rasgar a mochila. Pegou o tabuleiro de xadrez e se sentou na calçada, pretendendo disputar uma partida com o urso de pelúcia que encontrara antes. Após ajeitar o urso de modo que ficasse sentado de frente para ele, inspirou profundamente e disse:
_ Você começa.
Ouviu sirenes de polícia e uma música fúnebre. Em seguida visualizou uma viatura sendo seguida por um carro da Funerária Paulista Fernando Henrique Cardoso. Os dois veículos abriam caminho por entre o engarrafamento.
Notou que o irlandês também seguia a viatura, a pé. Deu um muxoxo de desprezo, beijou a cabeça suja do urso e voltou para o Neves.
Matou o tempo e não fez nada por várias horas, até que foi checar o e –mail (freudboy.v@brasilmail.com) pelo iPhone 2 e percebeu que sua maravilhosa filha havia lhe mandado uma história que havia escrito. Segundo ela, misturava drama, fantasia e ficção científica.
Abriu o anexo, e se deparou com o que a seus olhos pareceu a mais perfeita obra de arte:
“Na longuíqua ilha de Filologis Monera Boom 7.26, vivia um pescador troll. Seu nome era Maluquinho Samuele Fishguy, e ele tinha uma esposa elfa chamada Sara Wanda Romulox -Fishguy, centenas de concubinas sereias e dez filhos: Juan, Juanita, Ana, Fucker, Hook, Maluquinho Jr., Pig, Bela, Aurora e Mana. Os quatro últimos eram filhos da concubina Ticroti, Ana e Fucker eram filhos da concubina Megan, Juanita, Maluquinho Jr. e Hook eram filhos da esposa e Juan, o mais velho, era um garoto –urso que Maluquinho tinha adotado em sua primeira viagem para fora de Filologis, bem antes de se casar com Sara, quando tinha apenas nove concubinas: Bíblia, Luna, Lilith, Deméter, Ethos, Psique, Megan, Temari e Rachel.
Em Filologis, quando não estava pescando para pôr comida na mesa ( o que fazia quase o tempo todo), Maluquinho costumava ler o Eletricus, livro sagrado de sua religião, para Pig e Hook, que queriam ser sacerdotes e espalhar sua fé por todo o sistema solar. Também brincava de esconde – esconde com Aurora e Mana e ensinava a Juan e Fucker os princípios do ofício de ferreiro, já que seguir esse ofício era o sonho deles e o pai tinha feito um curso de forja em Marte. Bela, Maluquinho Jr., Juanita e Ana não ligavam muito para a família, já que eram obcecados por origami, quebra – cabeças, contos eróticos e botânica.
Maluquinho era muito apegado à sua família e às suas concubinas, principalmente a Juan, Sara, Aurora, Hook, Mana, Lilith, Deméter, Fucker e Ethos. Com esses nove aos quais era mais apegado, tinha muitas boas memórias de anos passados, quando competiam para ver quem conseguia roubar mais frutos – proibidos ( uma fruta deliciosa nativa da ilha) das hortas dos vizinhos burgueses. Antigamente, quem vencia ganhava um pedaço da torta que Sara e Hook faziam misturando semente de fruto – proibido, tabaco e pérolas que Lilith tirava das conchas do fundo do oceano.
Eles não faziam mais isso desde alguns anos atrás, quando Sara  havia pegado a Peste do Arco – Íris, uma doença hedionda e muitas vezes letal que, segundo todos os médicos de sete mil sistemas solares ( o que equivalia a 6216000 planetas) bem longe de  Apul Gypikro ( o planeta onde a ilha ficava), era completamente incurável.
Sara sobrevivia estoicamente dia após dia apenas graças à sua própria força de vontade e o fato de que Psique e Temari eram magas e sabiam fazer magias de cura paliativas.
Maluquinho pensava tristemente nisso tudo enquanto se embrenhava nos pinheiros artificial da floresta artificial do zumbi Jack  Reficúl, um de seus vizinhos burgueses, para pegar um atalho até Trollshire, o beco habitado por  seus primos e arquinimigos alcóolatras, onde vendia seus peixes para o rei de Filologis, James Hook, um pirata tirano que se aliava a trolls mendigos anarquistas ( que aliás tinham seu Sindicato presidido pelos antes citados primos trolls alcóolatras de Maluquinho), zumbis burgueses e robôs fazendeiros ( esses três grupos compunham a elite da ilha) para se manter no poder, e em homenagem ao sobrenome do qual Maluquinho fora obrigado a nomear seu quarto filho, fato com o qual o pescador nunca se conformaria.
Após sair da floresta artificial, Maluquinho alugou uma cesta de pele de unicórnio por 12 crânios ( o nome do dinheiro da ilha), pôs seus peixes nela e entrou em Trollshire. Sentiu o desagradavelmente familiar cheiro de fezes de troll e soube com certeza que, ao contrário do que pedira na última prece ao seu deus, ele não acordaria e perceberia que sua vida miserável fora um sonho e que estava deitado ao lado de Sara, Lilith, Deméter e Ethos no tapete do castelo do rei, com a coroa feita de bronze repousando suavemente na cabeça.
As rotineiras lágrimas de frustração começaram a cair novamente, porém o pescador seguiu em frente, caminhando pesaroso em direção aos primos, que seguravam garrafas de aguardente de fruto – proibido e o xingavam , como sempre.
_ Olá, cavalheiros – o pescador os cumprimentou usando o bordão usual.
_ Ma, seu idota energúmeno! Seu pedaço de bosta! Como vão os bastardinhos sacerdotes, seu lixo ?!! – berraram em uníssono os quatorze primos, respondendo ao bordão dele também como sempre.
_ Pig e Hook estão bem...cavalheiros. – Maluquinho sabia até o falso tom reticente tinha que ser calculado, que tinha que seguir rigidamente a ordem do diálogo que os primos haviam lhe imposto como punição por rouba –los décadas atrás, ou eles não comprariam os peixes e no fim daquela semana faltariam alguns crânios, ou seja, Juan, as concubinas e Sara teriam que limpar os chiqueiros dos fazendeiros novamente para ajudar a sustentar a família. E Sara estava piorando, ele mereceria ser condenado ao Vulcão Magnético se ela tivesse que fazer aquilo de novo!
_ Ficamos aterrorizados de saber, seu maricas! Os bastardinhos já deveriam ter sido possuídos há tempos pelos demônios do Eletricus, sabe ? – sussurraram os primos, abrindo seus costumeiros sorrisos cínicos.
_ Com certeza, cavalheiros. Minha religião é ultrapassada, como os pelos pubianos da minha avó, com a qual  vocês fornicaram ano passado no cemitério particular do rei James... né ? – após aparentar calma, submissão e tom brincalhão mais uma vez, Maluquinho se imaginou sendo devorado por unicórnios – tubarões. O ódio de si mesmo crescia a cada dia, mas sua família contava com ele. E isso era tudo que o pescador tinha, além das viagens raras para planetas longínquos.
_ Hu, hu... podemos chegar ao pescado, insignificante ?!!! A sua etnia não possui um cérebro bom ou memória minimamente razoável para se lembrar que somos seus compradores, certamente.  – murmuram os primos maldosamente, enquanto dividiam entre si mais uma garrafa de aguardente.
_ Como quiserem, etnias superiores. Sirvam – se. – depois que falou aquilo em falsete, o diálogo que precisava seguir todos os dias acabou. Os primos, de forma usual, tiraram a cesta de peixes da mão dele, escarraram em cima, fizeram um lento e costumeiro cálculo mental e lhe estenderam 195 crânios.” , leu em sua mente, se sentindo alegremente anestesiado.
Alguns minutos depois, a secretária de antes veio lhe avisar que em alguns minutos Madalena Machine e o filho sairiam da sala A2. Vladimir deu um grito esganiçado de alegria.


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